
Redução da mortalidade infantil: o exemplo da Pastoral da Criança
A triste perda da médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, deixa saudosa memória por seu inestimável trabalho de assistência à criança e traz à tona uma questão sempre presente nas aulas de Enfermagem, que tem norteado as políticas de saúde do país nas últimas décadas: a mortalidade infantil.
Reduzida para 22% em 2004, a mortalidade infantil chegou a atingir mais de 85% da população infantil em 1980 e, embora ainda seja elevada no Brasil, registrou expressiva diminuição graças a um conjunto de medidas adotadas para sua erradicação.
Além das campanhas de imunização, de incentivo ao aleitamento materno e aos programas de saúde da família e da criança, o país contou com a atuação dos voluntários da Pastoral da Criança, que desenvolvem ações de educação e saúde da criança diretamente nas comunidades pobres.
A atuação primorosa da pastoral, que orienta as mães sobre os cuidados básicos com crianças de 0 a 6 anos e prepara líderes comunitários para repassar esse conhecimento, contribuiu sobremaneira para a redução da desnutrição infantil, fantasma que até bem pouco tempo costumava assombrar as crianças brasileiras e representava uma importante causa de mortalidade.
Nas décadas de 1980 e 1990, era comum nas UTIs pediátricas a internação e mesmo o óbito de crianças com diarreia e desidratação aguda e, mais frequentemente, desnutrição, doenças recorrentes na população de baixa renda, que não tem acesso a uma alimentação adequada, água tratada, esgoto, nem dispõe de condições mínimas de higiene e habitação.
O trabalho desenvolvido pela Pastoral ajudou a atenuar esse quadro e tem como fundamento ações simples, como a orientação para o preparo do soro caseiro, o aproveitamento de alimentos para suplementação nutricional e o acompanhamento do peso da criança. Apesar da simplicidade, estas são medidas extremamente eficientes para o combate - e mesmo a eliminação - da mortalidade infantil.
O trabalho de Zilda Arns é um valioso exemplo de que mudanças efetivas podem ser obtidas com os recursos disponíveis. É um modelo a ser multiplicado, que não deve ser esquecido na criação de novos programas e no cotidiano dos profissionais de saúde.
Prof.ª Elaine Corrêa da Silva
Coordenadora dos Cursos de Especialização em Enfermagem em UTIP e Neonatologia.