Complexo de Alice

De 12 a 20 de maio comemorou-se a Semana da Enfermagem e, com isso, estive pensando um pouco sobre os reais significados da profissão do Enfermeiro.

A Enfermagem consolidou-se historicamente como a profissão que permanece o maior período de tempo ao lado do paciente. O que, se analisado profundamente, demonstra um alto índice de probabilidade em estabelecer-se um vínculo de confiança com o paciente e, assim, receber informações de como este se sente frente ao seu cuidado, a sua patologia, suas fragilidades ou ansiedades. Assim, a Enfermagem consegue criar um olhar mais centrado em como tem sido a experiência do processo de saúde e  doença na ótica do paciente do que sobre sua patologia em si. Com base nisso a NANDA International iniciou seus trabalhos há quase 40 anos na tentativa de descrever os diagnósticos de enfermagem. No decorrer destes anos desenvolveu-se na Enfermagem uma compreensão mais profunda de si própria.

Com base na evolução do conceito e estrutura do processo de enfermagem, o diagnóstico de enfermagem ganhou ênfase e tornou-se fruto das principais pesquisas que reconhecidamente se focaram no fazer do enfermeiro e de sua autonomia.

Muito se discute sobre este investimento em pesquisas sobre os diagnósticos de enfermagem. Há aqueles que se mostram extremamente contentes com este investimento, e, outros que se preocupam. Linhas de pensamento estão por trás destas posições. Os que preocupam-se se baseiam na premissa de que o paradigma mundial é pautado na interdisciplinaridade e não no monoprofissionalismo. Por sua vez, os que mostram-se entusiastas sabem que, desde sua existência mais pregressa, a enfermagem se baseiou em ajudar, em auxiliar e servir aos outros profissionais. Porém, com o desenvolvimento dos diagnósticos de enfermagem, a profissão conseguiu descrever seu fenômeno, encontrar sua razão de ser e compreender qual sua contribuição, não aos outros profissionais somente, mas à saúde do paciente e da população.

Com base nisso, cabe compreender tal fenômeno, uma vez que me incluo no grupo de entusiastas e não dos preocupados. Um diagnóstico de enfermagem é a descrição de uma resposta humana a um processo vital (incluindo o nascer, o morrer, o adoecer ou o tornar- se saudável) ou, ainda, de uma experiência do paciente (utilizando o conceito aprovado no NANDA-I/AENTDE International Congress que ocorreu em 12 a 14 de maio em Madrid, na semana da enfermagem). Assim, o enfermeiro se vê responsável não pela Diabetes, por exemplo, mas pela reação que o paciente tem à esta. Seja aderindo ou não ao programa de tratamento, ou seja, negando ou enfrentando a doença, para citar alguns exemplos.

Com isso, a Enfermagem conseguiu descrever seu fenômeno, encontrar seu espaço e, agora, começa a mensurar o impacto de saber o que de fato se deve fazer enquanto profissão.

Nos Congressos da NANDA vários trabalhos de mensuração de custo-benefício e custo-efetividade são apresentados demonstrando que, seja no âmbito da saúde coletiva ou hospitalar, o enfermeiro pode (e deve) fazer a diferença e impactar positivamente nos indicadores de saúde de uma população.

Saber descrever seu fenômeno é fugir do “Complexo de Alice” e saber responder a pergunta do gato risonho sobre: “aonde você deseja ir?”. Ao invés de responder: ”tanto faz”. Hoje, a enfermagem já sabe dizer aonde quer chegar. Que, nestes 100 anos da morte de Florence Nightingale a Enfermagem ganhe muito mais entusiastas do que preocupados e que os enfermeiros da prática saibam responder as perguntas dos milhares de gatos risonhos acerca de onde queremos ir.

Prof. Marcelo Chanes
Coordenador Adjunto do Curso de Graduação em Enfermagem do Centro Universitário São Camilo São Paulo, Secretary/Treasurer da NANDA International e enfermeiro por vocação