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Ouvidoria: Reflexões sobre o Fenômeno Bullying
Muito embora não tenhamos a pretensão de tratar o fenômeno bullying com originalidade neste veículo de comunicação, recentemente acompanhamos na mídia episódios de discriminação e violência nas escolas e universidades, que despertaram diferentes opiniões da sociedade quanto à interpretação e ao enfrentamento deste problema. Tais fatos geraram, entre muitos profissionais da Educação, um tema de urgência em nível de reflexão, para uma ação de maneira orientada e contundente em determinadas ocorrências no ambiente de ensino.
Existe um tipo de “assédio moral” que ocorre sutilmente nas relações entre os estudantes (crianças, adolescentes e adultos) sob forma de brincadeiras de mau gosto, apelidos pejorativos, que não identificamos como violência. Esse assédio moral faz referência a um comportamento ofensivo, humilhante, através de ataques violentos, sejam físicos ou psicológicos, violando a integridade física e moral do indivíduo. Trata-se do “Fenômeno Bullying”, padrão de comportamento caracterizado por agressões físicas e morais repetitivas, levando a vítima ao isolamento, à queda do rendimento escolar, a alterações emocionais, dores não especificadas, perda de autoestima, problemas de relacionamento, abuso de drogas e álcool. É um problema real nos ambientes escolares, atingindo faixas etárias cada vez mais distintas, desde a pré-escola ao ensino superior, marcado pela mitigação de valores morais, sociais, éticos e de respeito mútuo entre as pessoas. As primeiras pesquisas sobre o tema destacavam as tentativas de suicídio entre os adolescentes, sem receber a merecida atenção das escolas e famílias que não julgavam as brincadeiras infantis geradoras de grande impacto no comportamento deles. Hoje aumentou a sensibilidade dos profissionais da educação, e a percepção social sobre a “gravidade silenciosa” do tema nos ambientes de conivência de ensino, um dado muito importante, pois a vítima do Bullying costuma sentir-se mais frágil na ausência de apoio familiar. Inúmeras vítimas, por medo ou vergonha, sofrem em silêncio, o que faz perpetuar essa violência. Muitas vezes achamos que tais constrangimentos ocorrem com maior frequência em crianças, por não saberem se defender, mas notamos com base na escuta ativa da Ouvidoria, que muitos adultos também depõem acerca de realidades vividas ou derivadas de experiências de Bullying em algum momento de suas vidas. É nesse espaço que, pautadas na óbvia política de privacidade e ciência, as ações da ouvidoria promovem (quando necessário ou solicitado) mediações e diálogos entre as pessoas, para que assuntos delicados possam ser resolvidos ou minimamente esclarecidos em vista do mútuo respeito pela convivência e equidade. Parece lícito considerarmos um exemplo de Bullying em Universidade o episódio ocorrido ano passado na cidade de São Paulo, quando uma estudante, ao trajar roupas extravagantes pela faculdade, despertou uma reação desproporcional por parte dos colegas que a xingaram, extrapolando limites e submetendo-a a uma inquestionável situação de tensão, na qual foi necessária a escolta da polícia militar para retirá-la das instalações da Universidade. Esse foi um dos assuntos debatidos no Congresso Internacional de Ouvidores e Ombudsmen em outubro de 2009, onde se refletiu sobre as possibilidades de atuação da Ouvidoria na mediação desses conflitos, e na proposição de medidas intervencionistas e prevencionistas em diferentes contextos de assédio moral nas Organizações Empresariais e Institucionais de Ensino Superior. Foi um fórum marcado pela pluralidade de experiências regionais, pois a Ouvidoria da Universidade de Toronto não tem experiências dessa natureza, mas sim em ocorrências de falsidade ideológica em pesquisas científicas, enquanto as ouvidorias de universidades dos Estados Unidos, Argentina, Chile, Espanha e Brasil apontaram muitos casos de adultos vítimas de bullying em algum momento no curso de sua formação escolar, necessitando de orientação quando se encontram no ensino superior. Esta é uma prática cotidiana em nossa Ouvidoria no Centro Universitário São Camilo.
Conclui-se que não se age sozinho em termos de prevenção e intervenção, mas sim numa prática corporativa que estimule a transparência e a equidade nas relações interpessoais. Dessa maneira, a discriminação, o preconceito e a infantilidade dos comportamentos diminuem sensivelmente, pois o “clima de fofoca e assédio moral” decai à medida que as pessoas precisam assumir publicamente “o que pensam, o que querem, o que falam, por que falam, a quem, de fato, querem atingir quando verbalizam publicamente ou de maneira ‘velada’ apelidos e/ou informações não fundamentadas”.
Outro exemplo do Bullying debatido nesse fórum foi o “Trote Universitário”, em especial aquele em que o estudante torna-se uma vítima, deixando mesmo de celebrar, para tolerar as brincadeiras com receio de rejeição, ou até por medo da reação agressiva ou silenciosa de humilhação que venha a sofrer por parte dos veteranos. Na prevenção dessa prática, a ouvidoria acolhe e escuta o manifestante e seus pais, registrando e direcionando as reclamações para as áreas de direito; depois notifica as ocorrências e fatos; e, por fim, encaminha as respectivas recomendações para os níveis de Reitorias, Pró-Reitorias e Superintendências, a fim de monitorarem as ações propostas na semana de recepção dos calouros.
Ocorrências como as supracitadas fazem parte do cotidiano das Ouvidorias. Por ser este um canal aberto de escuta, temos o compromisso permanente de trabalhar com transparência e parcialidade, resguardando o sigilo das informações; mesmo assim, respeitamos os casos em que alguns manifestantes não querem se identificar ou fazer o registro do assédio sofrido, por medo de represálias. Para o Ouvidor, não basta ter competência técnica em sua prática; é preciso também ter a sensibilidade responsável para compartilhar o silêncio e perceber quando é chegada a hora de “saber parar para depois prosseguir”.
Finalmente, nenhum ambiente de ensino está imune ao Bullying, portanto faz-se de suma importância avaliar o entendimento que a comunidade escolar tem sobre o problema e a frequência com que ocorre. Outra ação importante das escolas e universidades é a construção de uma POLÍTICA DE “NÃO-BULLYING” formando grupos de trabalho para discussão de estratégias de divulgação e sensibilização dos alunos, professores, funcionários, corpo diretivo e colaboradores. Enfim, é fundamental que se construa um ambiente de aprendizado, expressão e convivência que não se restrinja a ensinar apenas o conteúdo programático, mas que também prepare cidadãos para o convívio em sociedade, exercitando o respeito, a educação, e a ética com naturalidade, justiça e integridade.
Luciana Bertachini - Ouvidora Geral da União Social Camiliana
Neusa Bacchini - Ouvidora Regional do Centro Universitário São Camilo - São Paulo
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