Meio Ambiente

Confrontos em Copenhague

No período de 7 a 18 de dezembro de 2009, todas as atenções estavam voltadas para a 15ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre o Clima, a COP 15, realizada pela ONU em Copenhague na Dinamarca. Representantes de 194 nações se reuniram com objetivo de estabelecer um novo acordo climático global, mas os resultados causaram muitas divergências e frustrações. Alguns especialistas e entidades da sociedade civil decepcionaram-se com os resultados, pois não houve um documento que expressasse o compromisso dos países em relação às mudanças de postura frente à emissão de gás carbônico e de outros gases e seus efeitos sobre a atmosfera terrestre.

Você lerá, a seguir - de autoria de Leonardo Boff, teólogo e escritor brasileiro reconhecido internacionalmente-, dois artigos que propõem uma instigante reflexão sobre a COP15.

Confrontos em Copenhague

Em Copenhague, nas discussões sobre as taxas de redução dos gases produtores de mudanças climáticas, duas visões de mundo se confrontam: a da maioria - dos que estão fora da Assembleia, vindos de todas as partes do mundo - e a dos poucos que estão dentro dela, representando os 192 estados. Estas visões diferentes são prenhes de consequências, significando, no seu termo, a garantia ou a destruição de um futuro comum.

Os que estão dentro, fundamentalmente, reafirmam o sistema atual de produção e de consumo, mesmo sabendo que implica sacrificação da natureza e criação de desigualdades sociais. Creem que, com algumas regulações e controles, a máquina pode continuar produzindo crescimento material e ganhos como ocorria antes da crise.

Mas importa denunciar que exatamente este sistema se constitui no principal causador do aquecimento global, emitindo 40 bilhões de toneladas anuais de gases poluentes. Tanto o aquecimento global quanto as perturbações da natureza e a injustiça social mundial são tidos como externalidades. Finalmente, o que conta mesmo é o lucro e um PIB positivo.

Ocorre que essas externalidades se tornaram tão ameaçadoras que estão desestabilizando o sistema-Terra, mostrando a falência do modelo econômico neoliberal e expondo em grave risco o futuro da espécie humana.

Não passa pela cabeça dos representantes dos povos que a alternativa é a troca de modo de produção, que implica uma relação de sinergia com a natureza. Reduzir apenas as emissões de carbono, mas mantendo a mesma vontade de pilhagem dos recursos é como se colocássemos um pé no pescoço de alguém e lhe disséssemos: “quero sua liberdade, mas à condição de continuar com o meu pé em seu pescoço”.

Precisamos impugnar a filosofia subjacente a esta cosmovisão. Ela desconhece os limites da Terra, afirma que o ser humano é essencialmente egoísta e que, por isso, não pode ser mudado e pode dispor da natureza como quiser; que a competição é natural e que, pela seleção natural, os fracos são engolidos pelos mais fortes e o mercado é o regulador de toda a vida econômica e social.

Em contraposição, reafirmamos que o ser humano é essencialmente cooperativo porque é um ser social, mas faz-se egoísta quando rompe com sua própria essência. Dando centralidade ao egoísmo, como o faz o sistema do capital, torna impossível uma sociedade de rosto humano. Um fato recente o mostra: em 50 anos os pobres receberam de ajuda dois trilhões de dólares, enquanto os bancos, em um ano, receberam 18 trilhões. Não é a competição que constitui a dinâmica central do universo e da vida, mas a cooperação de todos com todos.
A outra visão dos representantes da sociedade civil mundial sustenta: a situação da Terra e da humanidade é tão grave que somente o princípio de cooperação e uma nova relação de sinergia e de respeito para com a natureza nos poderão salvar. Sem isso vamos para o abismo que cavamos.

Essa cooperação não é uma virtude qualquer. É aquela que outrora nos permitiu deixar para trás o mundo animal e inaugurar o mundo humano. Somos essencialmente seres cooperativos e solidários, sem o que nos entredevoramos, por isso a economia deve dar lugar à ecologia. Ou fazemos esta virada ou Gaia poderá continuar sem nós.

A forma mais imediata de nos salvar é voltar à ética do cuidado, buscando o trabalho sem exploração, a produção sem contaminação, a competência sem arrogância e a solidariedade a partir dos mais fracos. Este é o grande salto que se impõe neste momento. A partir dele, Terra e Humanidade podem entrar num acordo que salvará a ambos.

É a treva: rumo ao desastre

Uma jovem e talentosa atriz de uma novela muito popular, Beatriz Drumond, sempre que fracassam seus planos, usa o bordão: “É a treva”. Não me vem à mente outra expressão ao assistir o melancólico desfecho da COP 15 sobre as mudanças climáticas em Copenhague: é a treva! Sim, a humanidade penetrou numa zona de treva e de horror. Estamos indo ao encontro do desastre.

Anos de preparação, dez dias de discussão, a presença dos principais líderes políticos do mundo não foi suficiente para espantar a treva mediante um acordo consensuado de redução de gases de efeito estufa que impedisse chegar a dois graus Celsius. Ultrapassado esse nível e beirando os três graus, o clima não seria mais controlável e estaríamos entregues à lógica do caos destrutivo, ameaçando a biodiversidade e dizimando milhões e milhões de pessoas.

O Presidente Lula, em sua intervenção no dia mesmo do encerramento, 18 de dezembro, foi o único a dizer a verdade: “faltou-nos inteligência” porque os poderosos preferiram barganhar vantagens a salvar a vida da Terra e os seres humanos.

Duas lições se podem tirar do fracasso em Copenhague: a primeira é a consciência coletiva de que o aquecimento é um fato irreversível, do qual todos somos responsáveis, mas principalmente os países ricos. E que agora somos também responsáveis, cada um em sua medida, do controle do aquecimento para que não seja catastrófico para a natureza e para a humanidade. A consciência da humanidade nunca mais será a mesma depois de Copenhague. Se houve essa consciência coletiva, por que não se chegou a nenhum consenso acerca das medidas de controle das mudanças climáticas?

Aqui surge a segunda lição que importa tirar da COP 15 de Copenhague: o grande vilão é o sistema do capital com sua correspondente cultura consumista. Enquanto mantivermos o sistema capitalista mundialmente articulado será impossível um consenso que coloque no centro a vida a humanidade e a Terra e se tomar medidas para preservá-las. Para ele centralidade possui o lucro, a acumulação privada e o aumento de poder de competição.

Por isso ecologia e capitalismo se negam frontalmente. Não há acordo possível. O discurso ecológico procura o equilíbrio de todos os fatores, a sinergia com a natureza e o espírito de cooperação. O capitalismo rompe com o equilíbrio ao sobrepor-se à natureza, estabelece uma competição feroz entre todos e pretende tirar tudo da Terra, até que ela não consiga se reproduzir.

Ademais, o capitalismo é incompatível com a vida. A vida pede cuidado e cooperação. O capitalismo sacrifica vidas, cria trabalhadores que são verdadeiros escravos “pro tempore”e pratica trabalho infantil em vários países.
Os negociadores e os líderes políticos em Copenhague ficaram reféns deste sistema. Essa barganha quer ter lucros, não hesita em pôr em risco o futuro da vida. Sua tendência é autossuicidária. Que acordo poderá haver entre os lobos e os cordeiros, quer dizer, entre a natureza que grita por respeito e os que a devastam sem piedade?

Por isso, quem entende a lógica do capital não se surpreende com o fracasso da COP 15 em Copenhague. O único que ergueu a voz, solitária, como um “louco” numa sociedade de “sábios”, foi o presidente Evo Morales: “Ou superamos o capitalismo ou ele destruirá a Mãe Terra”.

Gostemos ou não gostemos, esta é a pura verdade. Copenhague tirou a máscara do capitalismo, incapaz de fazer consensos porque pouco lhe importa a vida e a Terra, mas antes as vantagens e os lucros materiais.

 
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