Revista Meu Nenê, edição de abril

De olho na BALANÇA

É indispensável que a gestante ganhe alguns quilos, mas o seu peso deve ser controlado, para garantir o seu bem-estar e o do bebê. Respondemos aqui as dúvidas mais comuns sobre o tema

Angela Miguel

Você sabia que 43% dos adultos das capitais do Brasil estão acima do peso, sendo que 11% estão obesos? E do total, 39% são mulheres. Tais dados alarmantes são resultados de uma pesquisa recente do Ministério da Saúde e despertam para a discussão acerca da saúde e do bem-estar, pois muito além da forma física está a melhor alternativa para o seu organismo. É pensando assim, de modo consciente e saudável, que toda mulher deve ganhar seus quilinhos durante a gestação.

O aumento de peso dentro do programado, fruto de uma boa alimentação, contribui na boa formação, crescimento e desenvolvimento do bebê, bem como no desejável acúmulo de nutrientes e gordura, importantes para a amamentação. Para isso, a futura mamãe deve fazer o acompanhamento mês a mês com seu obstetra, além de seguir uma dieta rica em proteínas, carboidratos, fibras...

Confira o que você precisa saber para garantir nove meses saudáveis para mamãe e bebê:

Quantos quilos a gestante deve ganhar durante os nove meses?

O aumento de peso é relativo e depende das condições de saúde de cada mulher. Porém, os obstetras aconselham o ganho entre oito e 12 quilos, para garantir uma boa oferta de nutrientes para a formação e desenvolvimento do feto. “Nos três primeiros meses a gestante pode manter o peso ou, em alguns casos, até emagrecer, por causa dos enjôos”, explica a ginecologista e obstetra do Hospital São Luiz, Luciana Taliberti (SP). “Porém, a partir da 12ª semana, a grávida pode engordar um quilo a cada mês”, completa.

A grávida pode engordar mais no último trimestre?

É comum que a gestante ganhe pouco mais de quatro quilos nos três últimos meses da gestação, pois o bebê está maior e necessita de mais nutrientes. “Além do mais, nesse período a mãe retém bastante líquido e o bebê cresce muito”, conta o obstetra Alcides Vara, das maternidades Pro Matre e Santa Joana (SP).

O ganho de peso pode variar de acordo com a altura da gestante?

De acordo com a doutora, especialista em Nutrição Clínica e professora do Centro Universitário São Camilo, Solange Guertzenstein (SP), a altura influencia apenas por ser um fator considerado no cálculo do gasto calórico diário. “A forma adequada de se avaliar quanto peso a gestante deve ganhar é por meio de uma avaliação individualizada, baseada em seu peso atual, altura, nível de atividade física, mês de gestação e condições de saúde”, diz a especialista.

A retenção de líquido também é responsável pelo aumento de peso?

“Sim, há pacientes que ganham mais de dois quilos por conta da retenção hídrica”, aponta Alcides Vara. Segundo a professora do Centro Universitário São Camilo, esta retenção, quando exagerada, costuma estar associada a problemas na gestação, como a síndrome hipertensiva. “Portanto, deve-se combater as causas do edema e tomar algumas medidas paliativas como levantar as pernas (na altura do quadril) no fim do dia, não ingerir muito sal, não usar sapatos apertados e evitar ficar muito tempo em pé”, aconselha Solange. A drenagem linfática também ajuda a combater todo esse inchaço.

A mulher que espera gêmeos pode ganhar mais peso?

Já que ela deve alimentar e prover um bom desenvolvimento para dois fetos, ela pode ter um aumento maior de peso, mas ainda dentro do recomendável. A futura mamãe de dois ou mais filhos deve ganhar, geralmente, quatro quilos a mais do que a de gestação única. “No mínimo, mais 50% do peso recomendado, o que representa cerca de 15 quilos”, recomenda o obstetra Alcides Vara.

Além do bebê, o que mais faz diferença no acúmulo de peso?

O bebê é responsável por cerca de 3 quilos a 3,5 quilos, o útero ficaria com um quilo e a placenta, 500 gramas. Em relação ao líquido amniótico, a mulher deve ganhar mais um quilo, e as mamas acrescentam cerca de 500 gramas. A gordura corporal, fato que muito preocupa as mulheres na hora de perder o peso conquistado na gravidez, costuma variar entre 1,8 quilo e 3,6 quilos.

Logo após o nascimento, quanto a mulher perde em quilos?

No momento do parto, a mulher perde entre seis e sete quilos, representados pelo recém-nascido, a placenta e o líquido amniótico. Um pouco de peso também vai embora em alguns dias, resultado da eliminação do líquido excedente que provocava o inchaço corporal. O restante, correspondente àquele acúmulo de gordura, a mulher pode perder com alimentação balanceada e exercícios físicos, mas só depois de liberada pelo médico.

O estresse e a ansiedade são ameaças ao controle do peso?

Eles contribuem no aumento do peso na gravidez. “O cortisol, hormônio que aparece nos momentos estressantes, faz o corpo acumular mais gordura”, conta o obstetra Alcides Vara. Tanto o estresse quanto a ansiedade fazem com que a grávida busque algo que acalme e dê prazer. Por isso, muitas se aproveitam da comida e exageram. “É preciso evitar ´beliscar´ e encontrar alternativas, como fazer exercícios leves, que também liberam endorfinas - substâncias que também transmitem sensação de bem-estar”, aconselha Luciana.

Elevar os ponteiros da balança pode gerar um quadro de diabete gestacional?

Se a gestante engordar demais, a doença pode ser agravada, sim, já que ela ingere uma quantidade muito maior de carboidratos, o que provoca o aumento da glicemia. Sendo assim, a mãe torna-se incapaz de produzir uma quantidade suficiente de insulina, o hormônio que transforma a glicose em energia. Além disso, a alta ingestão de carboidratos pode fazer com que o bebê nasça grande e gordo, causando dificuldades na hora do nascimento.

A mulher que ganhou quilos a mais pode ter dificuldades no parto?

Caso ela esteja muito acima do peso, o primeiro reflexo surgirá em forma de dores nas costas. O segundo é a má circulação, que resultará em inchaços. Finalmente, durante o parto - caso ele seja normal - a mãe se cansará com maior facilidade e terá dificuldade em expulsar o bebê. Na cesárea, a gordura presente nos tecidos pode atrapalhar a cicatrização.

Como deve ser a alimentação da grávida para que se mantenha um bom peso?

De acordo com Solange Guertzenstein, o importante é que a gestante tenha uma alimentação variada, com muitas frutas, legumes e verduras, para não deixar faltar nenhuma vitamina ou nutriente. É indispensável também colocar no prato boas fontes de proteína animal (frango e peixe, de preferência), ovos, leite e derivados, além das fibras. “A gestante deve se alimentar, obrigatoriamente, seis vezes ao dia. Ela não deve ficar mais do que três horas sem ingerir algum alimento”, aconselha a especialista. É bom tomar bastante água, não usar adoçantes e, claro, não fumar e nem ingerir álcool.

Os hormônios da gravidez colaboram para que a mulher engorde?

Sim. De acordo com a obstetra Luciana Taliberti, o principal hormônio responsável pelo aumento de peso é a progesterona, que ajuda a reter líquidos e deixa o metabolismo e a digestão mais lentos. Segundo Solange, a progesterona é lipogênica, isto é, ela aumenta o tecido adiposo. Mas esse acréscimo de gordura é extremamente necessário, pois armazena energia e nutrientes que serão úteis - para mãe e filho - e não é apenas um transtorno estético. “Os hormônios favorecem aumento de gordura que será mobilizada no período em que a mulher gastará mais energia, quando amamenta”, explica a doutora em nutrição clínica.

Em quanto tempo após o parto é possível iniciar uma dieta e uma rotina de exercícios para emagrecer?

A nova mãe não deve ter a mínima pressa para retornar ao peso anterior, segundo a especialista em nutrição Solange Guertzenstein. “O emagrecimento acelerado prejudica o aleitamento e diminui o volume de leite produzido. Além disso, pode haver produção de substâncias nocivas para o leite caso a mamãe comece a mobilizar seu tecido adiposo de forma muito rápida. Essas substâncias podem ser passadas para o bebê”, explica. Para Luciana Taliberti, se a gestante comportar-se bem e alimentar-se corretamente durante os nove meses, 40 dias após o parto ela estará no seu peso ideal. “Em alguns casos, isso poderá demorar até quatro meses, mas não é preciso ter pressa. É importante lembrar também que amamentar ajuda a perder peso”, finaliza a obstetra.