| Portal Universia, 22/04/2010 |
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Com Tim Burton, Alice volta a enfrentar seus medosHistória de Lewis Carrol leva menina a viagem de autoconhecimento
Publicado em 22/04/2010 - 12:00 no site: http://www.universia.com.br/universitario/materia.jsp?materia=19484 Por Bruno Loturco
Toda a fantasia repleta de filosofia da história original de "Alice no País das Maravilhas" volta à tona com a produção de Tim Burton para os cinemas. E agora, com 19 anos e precisando decidir se aceita ou não o casamento que lhe foi arranjado com um lorde, Alice (Mia Wasikowska) mergulha novamente em sua própria mente para enfrentar medos e monstros. Assim, reencontra os personagens que conheceu na infância e que reapareciam constantemente em seus sonhos durante a adolescência, como o Gato Cheshire, o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) e os garotos gêmeos Tweedledee e Tweedledum (Matt Lucas). E a ação da história, assim como na versão original impressa, mescla realidade e sonho ao intercalar situações concretas a fatos que só ela vivencia. A diferença mais evidente tem a ver com a postura da própria Alice. Agora que cresceu, ela assume papel ativo e procura descobrir por si mesma aonde os caminhos apontados pelo Gato podem levá-la. É o contrário de sua primeira visita ao local que chama de País das Maravilhas, quando afirmava ao mesmo Gato que qualquer caminho servia desde que chegasse a algum lugar. A protagonista demonstra ter aprendido a importância de conhecer as conseqüências de suas decisões e está interessada em fazer as escolhas conscientemente. "O que se nota em Alice, acima de tudo, é um processo de construção de si mesma", observa Ângela Zamora Cilento de Rezende, professora de Filosofia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Tanto que o Oráculo - a Lagarta Azul que fuma narguilé - afirma não ter certeza se aquela é a Alice certa, que talvez seja, mas ainda não totalmente. Remete, assim, ao processo em andamento na vida da menina tanto no plano fantasioso, quanto no real, de que ela está se tornando o que deve ser. A figura da lagarta é simbólica por representar a borboleta que virá a ser. No entanto, diferente da lagarta, que só pode se tornar borboleta, Alice pode ser o que quiser. E, na opinião de Lelita Oliveira Benoit, professora de Filosofia do Centro Universitário São Camilo, é justamente esse excesso de liberdade que atrapalhou a personagem. "O primeiro percurso dela remete bastante ao existencialismo, quando é levada às situações por forças alheias à sua vontade. Nesse segundo momento ela exerce sua liberdade porque sabe que nada está pronto e tudo pode ser mudado, inclusive a imposição do casamento", explica a professora. Para ilustrar a urgência da decisão que se impõe à menina, Ângela cita Friedrich Nietzsche e suas metamorfoses do espírito. "Eu vo-lo digo: é preciso ter ainda um caos dentro de si para gerar uma estrela bailarina. Eu vo-lo digo: tendes ainda um caos dentro de vós", em "Assim Falava Zaratustra". Com isso, ela quer dizer que Alice está imersa no caos e só será capaz de refletir sobre sua condição ao tomar conhecimento de que está num momento de mudança. Além disso, é a partir do autoconhecimento que ela se tornará capaz de assumir o controle sobre sua vida. "Ela poderia ter se conformado com o destino que haviam traçado para ela. Entretanto, preferiu seguir o coelho branco que pode representar o apelo que todos temos para sermos nós mesmos, a correr atrás das próprias verdades por caminhos não trilhados e que investigados nos levam ao precipício interior ", analisa Ângela. Ela cita ainda o existencialismo de Jean Paul Sartre para falar sobre o sentimento que governa esse enfrentamento interno: a angústia. Afinal, ao mesmo tempo em que pesa a responsabilidade pela escolha, não há indícios de que sejam certas ou erradas. O que há na história é Alice na constante busca pela coragem de enfrentar o dragão Jabberwocky para, assim, dominar seus medos interiores e tornar-se senhora de si. Outra referência a Nietzsche feita por Ângela diz respeito ao desfecho do chamado "Dia Frabuloso", quando o chapeleiro promete dançar caso o dragão seja derrotado. "Isso não é à toa. O riso, o jogo, a dança são os poderes afirmativos de transmutação: a dança transmuta o pesado em leve", cita ela. Jogo político Além das questões filosóficas e psicológicas, o filme "Alice no País das Maravilhas" apresenta também um intrincado jogo político entre as irmãs Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) e Rainha Branca (Anne Hathaway). A primeira, cruel e com uma cabeça enorme, apesar de mais velha, é preterida na sucessão oficial ao trono. No entanto, toma o poder da bela e gentil Branca. A prática de cortar a cabeça de quem lhe desagrada acaba por espalhar medo entre todo o reino. O aspecto de jogo é destacado pelo fato dos soldados da Rainha Vermelha serem representados por cartas de baralho e os da rainha branca por peões de xadrez. Além disso, a batalha final ocorre num grande tabuleiro de xadrez. Ângela fala ainda do grande dilema da Rainha Vermelha sob o ponto de vista d'O Príncipe, de Maquiavel: é melhor ser temido do que amado? Ela, assim como recomenda Maquiavel, opta pelo temor por confiar mais no medo do que nos laços de gratidão. Mas a próxima recomendação do autor de O Príncipe é para que o governante tome o cuidado de não extrapolar o temor e se tornar odiado. A personagem de Helena Bonham Carter convive com esse dilema durante todo o filme e sabe que dessa habilidade de equilibrar temor e amor dependerá a lealdade de seus soldados. É maquiavélica também a promessa do cavaleiro Stayne (Crispin Glover), cúmplice da Rainha Vermelha, ao cão Bayard de libertar toda sua família caso ele fareje o rastro de Alice. Afinal, afirma Maquiavel, que o príncipe só deve cumprir promessas se lhe for conveniente. .
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